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Artigo do Leitor: “A flor do mandacaru, o silêncio da casa e o que a vida insiste em nos ensinar”

Artigo do Leitor: “A flor do mandacaru, o silêncio da casa e o que a vida insiste em nos ensinar”

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Neste artigo, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino compartilha um relato sensível e reflexivo sobre a perda de um animal de estimação, transformando o luto em um exercício profundo de humanidade. A partir do silêncio deixado na casa, do comportamento dos outros cães e da simbologia da flor do mandacaru, que floresce por apenas uma noite, o autor conduz o leitor a uma reflexão sobre apego, impermanência e a forma distraída com que muitas vezes atravessamos a vida. Com referências à filosofia, à literatura e às experiências mais íntimas, o texto convida a desacelerar, estar presente e honrar os vínculos enquanto eles existem.

Leiam:

No domingo, dia 4, ao voltar do almoço, a vida nos alcançou sem aviso. Daqueles encontros que não levantam a voz, mas reordenam tudo por dentro. Um dos nossos cãezinhos, talvez o mais meigo, o mais quieto, o mais obediente, estava ofegante. Havia, naquele corpo pequeno, uma urgência que não se explica. Corremos para a clínica veterinária. Ele não voltou.

O choro dos filhos, o olhar da minha esposa, a impotência absoluta diante do inevitável… tudo atravessou a casa como um vento frio. Mas o que mais me desarmou veio depois. Ao retornarmos, os outros dois, a companheira e o filhote , nos esperavam em silêncio. Olhavam como quem pergunta sem palavras: cadê ele? por que não veio? A ausência, ali, ganhou forma.

Passados seis dias, eles continuam mais quietos. Deitados. A casa, que sempre foi movimento, agora tem pausas. Até a Meg, a primeira a chegar, anos atrás, para trazer alegria à minha filha, então introspectiva, parece entender. Foi por ela que vieram os outros. A alegria gerou vida. E agora a perda nos educa.

A natureza é sábia. Cada cão tem um temperamento próprio, como cada pessoa. Nada se repete. Nada se substitui. E, ainda assim, tudo passa.

Vivemos como se fôssemos donos do que amamos. Como se houvesse controle. Como se o amanhã estivesse contratado. Andamos vinte, trinta anos pelo mesmo caminho e já não sabemos descrever uma árvore, uma flor, um rosto. Dizemos que amamos, mas vivemos distraídos. No automático.

O mandacaru ensina sem discurso. Sua flor desabrocha por uma única noite. É rara, intensa, inteira. No dia seguinte, some. Vale menos por isso? Ou vale mais justamente porque não dura? Talvez a beleza esteja na brevidade. Talvez o amor só exista porque é finito.

A literatura já nos avisou. A filosofia também. Há um pavor silencioso quando percebemos, tarde demais, que gastamos energia com o que não permanece. O sofrimento nasce do apego, dessa ilusão infantil de que algo pode ser nosso para sempre. A vida, paciente, responde com perdas pequenas e grandes, como quem diz: esteja presente.

Há uma antiga parábola: uma mãe, dilacerada pela morte do filho, pede que lhe devolvam a vida. Em resposta, recebe um pedido impossível , encontrar uma semente de mostarda em uma casa onde a morte nunca tenha entrado. De porta em porta, ela encontra luto. E aprende: a dor não é exclusiva; o apego é que nos isola. A perda é universal.

Mesmo o sagrado chora. O choro não nega a fé; confirma o amor. Amar dói porque cria vínculo. E vínculo, um dia, se rompe. Não por crueldade, mas por natureza.

Hoje, não me atormento com perguntas sobre “para onde vou”. Não me lembro de ter pedido para existir. A vida é empréstimo. Uso temporário. Tudo o que passa por nós está de passagem , inclusive nós mesmos.

A perda do nosso cãozinho não é apenas tristeza. É recado. É a vida, mais uma vez, batendo à porta e dizendo, com delicadeza severa: olhe. sinta. honre. Porque tudo muda o tempo todo. E quase sempre, quando percebemos, já foi.

A pergunta que fica não é por que dói tanto perder.
E por que demoramos tanto a viver enquanto temos.

Rivelino Liberalino

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